Bioshock Infinite e o alerta sobre autoritarismo dos tempos atuais

Existem alguns jogos que, assim como o cinema, trazem mensagens que, por vezes, passam despercebidas pelo espectador/jogador. No fim de 2024, no lugar de jogar games que eu ainda não tinha jogado, resolvi dar uma volta por Columbia de Bioshock Infinite e reviver esse que é um dos jogos que mais me emocionou em toda a minha “carreira gamer”. Tanto que resolvi escrever um ensaio sobre o jogo e agora trago para você pensar comigo como esse jogo é profundo e, ao mesmo tempo, poderia trazer um peso maior para os temas que aborda.

Bioshock Infinite, idealizado por Ken Levine e desenvolvido pela Irrational Games, é muito mais do que um jogo de tiro em primeira pessoa. Ele é uma complexa exploração de temas como fanatismo religioso, nacionalismo exacerbado, culto à personalidade, disparidade social e militarização.

A cidade flutuante de Columbia, com seu ápice de esplendor e degradação moral, é o pano de fundo perfeito para essas questões. Ao explorar esses temas, o jogo oferece uma crítica incisiva às dinâmicas de poder e controle que continuam a ressoar no mundo real.

Se o game fosse lançado em 2025, certamente veríamos uma enxurrada de jogadores dizendo que este é um jogo “woke” devido aos temas que aborda, enquanto você sai metralhando os inimigos.

Fanatismo Religioso e Nacionalismo

Em Columbia, o fanatismo religioso é usado como uma ferramenta poderosa de controle. O líder Comstock manipula habilmente a fé dos habitantes da cidade, distorcendo passagens bíblicas para justificar sua autoridade e a opressão de minorias.

Qualquer similaridade com Tayyip Erdogan é puramente acidental, afinal, o jogo de 2013 sequer imaginava que Erdogan ficaria no controle da Turquia por mais de duas décadas. Erdogan foi o primeiro-ministro do país entre 2003 e 2014 e eleito presidente em 2014, nunca mais saindo do poder.

Embora se apresentem de formas distintas, tanto Comstock quanto Erdogan utilizam a religião para mobilizar sua base de apoio e justificar suas políticas. Erdogan, que ascendeu ao poder em um contexto de crescente polarização política e busca por uma identidade nacional mais forte, se apresenta como um defensor do Islã e tem promovido uma agenda conservadora.

Assim como Comstock, ele se utiliza de um discurso polarizador que divide a sociedade entre “nós” e “eles”, construindo um culto à personalidade que o coloca como um líder forte e infalível.

“Profecia é meu negócio, Sr. DeWitt, bem como o sangue é seu. Você sabe por que esses homens morreriam por mim?” – Comstock

Diferente de Erdogan, Comstock se aprofunda no âmbito espiritual e se apresenta como um profeta que recebe mensagens divinas, criando um sistema onde qualquer oposição é vista como heresia. Por exemplo, Comstock utiliza passagens religiosas para promover a ideia de que ele é o escolhido para guiar Columbia, manipulando a interpretação da fé para consolidar seu poder.

Essa dinâmica reflete as táticas de líderes religiosos extremistas que usam a fé para incitar ódio e violência. Tanto em Columbia quanto em nosso mundo, a manipulação da fé para fins políticos representa uma ameaça à liberdade e à democracia, exigindo constante vigilância e crítica.

A crítica social em Bioshock Infinite vai além da esfera religiosa, explorando também os perigos do culto à personalidade e do autoritarismo. O nacionalismo exacerbado de Columbia se manifesta em símbolos, hinos e narrativas históricas que glorificam a nação e demonizam “o outro”.

O fanatismo religioso por seu líder, transformou Columbia em uma nação racista e intolerante

Essa crença na superioridade de Columbia alimenta a xenofobia e o racismo, justificando a segregação e a violência contra estrangeiros e minorias.

Esse fenômeno pode ser visto em movimentos nacionalistas e populistas ao redor do mundo, que exploram o medo do estrangeiro e a nostalgia de um passado idealizado para promover agendas políticas excludentes. Por exemplo, o atual presidente dos EUA, Donald Trump, e sua agenda segregacionista MAGA, que prometeu dar um fim aos imigrantes no país, são reflexos dessa tendência.

Embora Bioshock Infinite apresente uma crítica contundente ao fanatismo religioso e ao nacionalismo, ele poderia ser mais impactante se explorasse com maior profundidade as complexidades das crenças religiosas e das identidades nacionais, mostrando não apenas os aspectos negativos, mas também as formas como esses elementos podem ser usados para promover a inclusão e a paz.

Culto à Personalidade e Autoritarismo

Comstock é cultuado como uma figura messiânica, com sua imagem permeando cada aspecto da vida em Columbia. Essa veneração onipresente é uma tática clássica de regimes autoritários, que usam o culto à personalidade para sufocar a dissidência.

Para sustentar essa veneração, a propaganda desempenha um papel crucial, moldando a opinião pública e perpetuando o poder de Comstock. Por meio de cartazes, monumentos e discursos, a imagem de Comstock é reforçada, criando uma narrativa que suprime o pensamento crítico e inibe qualquer forma de contestação.

O Senhor perdoa tudo, mas eu sou um profeta… logo não preciso fazê-lo. Amém” – Comstock

Essa construção de uma figura messiânica e infalível encontra ecos em diversos regimes autoritários ao redor do mundo, como na Coreia do Norte de Kim Jong-un, na Venezuela de Nicolás Maduro e na Rússia de Vladimir Putin.

Nestes casos, a propaganda estatal constrói a imagem do líder como um salvador da pátria, um ser quase mítico escolhido por uma força superior para guiar o povo. Assim como os Césares romanos e os faraós egípcios, esses líderes se utilizam da propaganda e do controle da informação para manipular a opinião pública e perpetuar seu poder.

As mídias sociais e a internet, ferramentas poderosas de comunicação, são frequentemente utilizadas para amplificar essa propaganda, disseminar notícias falsas e criar “bolhas” de informação que reforçam visões extremistas e dificultam o acesso à informação crítica e imparcial.

Bioshock Infinite extrapola essa ideia e mostra que a vigilância constante e a repressão brutal tornam Columbia uma sociedade altamente controlada, onde a liberdade de expressão é inexistente e qualquer desvio da norma é severamente punido.

Essa atmosfera de medo e autocensura reflete o aumento da vigilância estatal e o uso de tecnologias de reconhecimento facial que hoje vemos em diversos países, incluindo na Inglaterra e aqui mesmo no Brasil.

A semente do Profeta sentará no trono e afogará em chamas as montanhas do homem

Governos e empresas, em nome da segurança, coletam dados biométricos de cidadãos sem o devido consentimento, monitorando seus movimentos e comportamentos, o que representa uma grave ameaça à privacidade e à liberdade individual.

Tecnologias essas que, enquanto prometem segurança, também ameaçam a privacidade e a liberdade individual, sendo utilizadas para perseguir dissidentes e minorias.

Mas mesmo sob o jugo da opressão, a chama da resistência nunca se apaga, como nos mostram os personagens que ousam desafiar o regime autoritário de Comstock. Cabe a nós, cidadãos, estarmos vigilantes e lutarmos para proteger a democracia e a liberdade, valores tão frágeis quanto essenciais.

Disparidade Social e Segregação

A sociedade de Columbia é marcada por uma segregação racial institucionalizada, onde negros são relegados a trabalhos servis e submetidos a humilhações constantes. Essa discriminação é justificada pela ideologia racista de Comstock, que os considera inferiores.

O jogo expõe a brutalidade dessa segregação e suas consequências desumanizadoras, mostrando como a segregação perpetua a desigualdade, limita oportunidades e gera ressentimento e conflitos. Essa dinâmica pode ser vista na persistência da desigualdade racial em diversos países, mesmo após a abolição da segregação legal.

“Já existe uma luta, DeWitt. A única pergunta é: de qual lado você está?” – Fitzroy

O racismo estrutural se manifesta em áreas como educação, saúde, justiça criminal e mercado de trabalho, perpetuando ciclos de pobreza e marginalização. A exploração dos trabalhadores pela elite de Columbia, que concentra a riqueza e o poder, gera revolta e alimenta o conflito entre os Vox Populi e os Fundadores.

Essa crítica à desigualdade social ressoa com a crescente desigualdade social em muitos países, onde a riqueza se concentra nas mãos de uma minoria enquanto a classe trabalhadora enfrenta condições precárias e salários estagnados. Essa desigualdade pode gerar instabilidade social e alimentar movimentos de protesto, refletindo a luta por justiça social e econômica.

Bioshock Infinite poderia aumentar seu impacto ao explorar soluções e movimentos de resistência à desigualdade dentro de sua narrativa, mostrando como a solidariedade e a organização coletiva podem desafiar as estruturas de poder e promover a equidade.

Violência e Militarização

Comstock utiliza a cultura do medo e paranoia para justificar a militarização de Columbia e a repressão de qualquer oposição. A criação de um “inimigo comum” é uma tática eficaz para desviar a atenção dos problemas internos e unir a população sob um regime autoritário.

A proliferação de armas e a constante ameaça de violência criam uma atmosfera tensa e opressiva, questionando a glorificação da violência e a cultura armamentista. Essa dinâmica é semelhante ao debate sobre o controle de armas em diversos países, especialmente nos Estados Unidos, onde a cultura armamentista impacta a segurança pública e perpetua ciclos de violência.

O colapso de Columbia é uma consequência direta da repressão brutal contra os Vox Populi e outras vozes dissidentes. A repressão gera mais violência, resultando em uma escalada de conflitos e no eventual colapso da sociedade. Esse ciclo é uma advertência sobre os perigos da intolerância e da opressão, refletindo situações reais onde o uso excessivo da força por parte do Estado pode levar à radicalização e instabilidade política.

Para ser mais relevante na sociedade atual, Bioshock Infinite poderia ilustrar com mais profundidade as consequências humanas da violência e da militarização, destacando as histórias pessoais e os impactos duradouros dessas políticas nas vidas das pessoas comuns. Isso enriqueceria a narrativa ao humanizar as questões complexas e demonstrar os custos reais da opressão e do militarismo.

Conclusão

Bioshock Infinite, com sua narrativa rica e provocativa, continua sendo uma poderosa crítica social. Ele aborda temas universais que permanecem relevantes, oferecendo uma reflexão sobre os perigos do fanatismo, autoritarismo, desigualdade e violência.

É curioso ver como um jogo tão antigo fala de problemas que presenciamos no presente e, mesmo sem citar nenhuma figura contemporânea, mostra que regimes democráticos e autoritários compartilham muitos dos problemas que vimos em Columbia.

Ao final da jornada por Columbia, permanece a incômoda sensação de que a distopia não está tão distante assim: os ecos do fanatismo, da opressão e da desigualdade ressoam nas manchetes de hoje, desafiando-nos a questionar e combater as sementes da tirania em nosso próprio mundo.

Que a experiência em Columbia nos inspire a construir um futuro mais justo, igualitário e livre — antes que nossa sociedade caia em um mar de ignorância e medo.